Alba

Alba. A pri­meira luz do cre­pús­culo que inter­rompe a noite dos aman­tes. É tam­bém a pri­meira luz no ama­nhe­cer das gran­des mudan­ças da vida. Como quem con­tem­pla o nas­cer de um novo dia, os sen­ti­men­tos de espe­rança e ale­gria confundem-​​se com o receio e a inse­gu­rança, cri­ando uma mis­tura agridoce.

A maior parte da música de Alba, o pri­meiro disco de Ale­xan­dre Diniz, é cons­ti­tuída por com­po­si­ções ori­gi­nais da sua auto­ria, e de Antó­nio Pinto. Exis­tem tam­bém duas ver­sões: “Slink”, de Lyle Mays, e “Dienda”, de Kenny Kir­kland, que repre­sen­tam uma home­na­gem a estes pia­nis­tas. A sono­ri­dade passa essen­ci­al­mente pela busca de um som de quar­teto, quase sem­pre sem dobra­gens, em que o único ins­tru­mento eléc­trico é a gui­tarra. As com­po­si­ções reflec­tem as influên­cias dos seus auto­res, que pro­cu­ram um som con­tem­po­râ­neo, par­tindo do Jazz ame­ri­cano para uma explo­ra­ção de ele­men­tos mais comuns no Jazz que se tem feito na nossa velha Europa. A ideia ori­gi­nal desenvolveu-​​se e decidiu-​​se acres­cen­tar alguns ele­men­tos elec­tró­ni­cos (em “Drama do Beiço”). A inclu­são do trom­pe­tista João Moreira como con­vi­dado foi tam­bém uma exten­são da ideia ini­cial de quar­teto, e uma esco­lha que veio enri­que­cer os temas “Slink” e “RGB”.

Capa do CD

As opi­niões

O Ale­xan­dre Diniz é um dos mais inte­res­san­tes jovens músi­cos de jazz deste país mas deve prestar-​​se jus­tiça aos outros ele­men­tos do quar­teto. Fun­ci­o­nam como colec­tivo e isso é audível.

Decla­ra­ções de José Duarte, incluí­das no ‘Per­fil’ de Ale­xan­dre Diniz, in Tabu, Sol (02 Out. 2009)

Sem grande esforço, espon­ta­ne­a­mente, per­ce­be­mos que, com Alba, esta­mos na pre­sença de um ver­da­deiro clás­sico. No sen­tido em que o disco parece sem­pre ter exis­tido. Não é que não haja novi­dade e sur­presa. O que há é – isso sim! – um grande con­forto e ausên­cia de sus­tos incó­mo­dos. Com a herança vital norte-​​americana e o fil­tro da sen­si­bi­li­dade euro­peia, Alba é mais um passo seguro na afir­ma­ção do jazz por­tu­guês. É tam­bém um con­tri­buto mais que válido para o Jazz, em geral.

André Pinto, in Jor­nal de Letras (04 Nov. 2009)

Vale a pena referir-​​se que o quar­teto + 1 fun­ci­ona sem­pre como um ver­da­deiro grupo com a sin­to­nia e enge­nho que define um grupo de Jazz, e com a ale­gria e entu­si­asmo que fazem a dife­rença. Um bom disco de estreia!

Leo­nel San­tos, in Jazz­lo­gi­cal (CD da semana de 06 a 12 Dez. 2009)

As fai­xas do CD

  1. Vento Norte (A. Diniz)
  2. RGB (A. Diniz)
  3. Sem Pala­vras (A. Pinto)
  4. Slink (L. Mays)
  5. Alba (A. Diniz)
  6. 1900 (A. Pinto)
  7. O Moi­nho (A. Diniz)
  8. Dienda (K. Kirkland)
  9. Drama do Beiço (A. Diniz)
  10. Regresso a Casa (A. Diniz)

Os músi­cos

  • Ale­xan­dre Diniz – piano, pro­gra­ma­ções em “Drama do Beiço”, composições
  • Antó­nio Pinto – gui­tar­ras, composições
  • Car­los Miguel – Bateria
  • Mas­simo Cavalli – contrabaixo
  • Con­vi­dado Espe­cial – João Moreira – trom­pete em “Slink” e Flis­corne em “RGB”

As com­po­si­ções: Alba na pri­meira pessoa

Vento Norte
Um dos temas com­pos­tos para o reci­tal final da ESMAE. O anda­mento rápido e flu­tu­ante lembra-​​me o vento e como foi escrito para ser tocado no Porto, dei-​​lhe este nome. Sem­pre que estava em casa, em Lis­boa, a pen­sar no tra­ba­lho que tinha que cum­prir para apre­sen­tar no Porto, era como se sen­tisse o “vento norte” a chamar-​​me.

RGB
Esta com­po­si­ção tam­bém foi apre­sen­tada no reci­tal da ESMAE. Nesta altura, andava a ler alguns livros de com­po­si­ção de Jazz. Um deles, escrito por Ron Mil­ler, aborda a com­po­si­ção modal como se fosse uma palete de cores. Este tema foi com­posto seguindo algu­mas téc­ni­cas apre­sen­ta­das por este autor. Que­ria dar-​​lhe um nome rela­ci­o­nado com cores e lembrei-​​me do nome do sis­tema de cores dos ecrãs de com­pu­ta­dor e televisão.

Sem Pala­vras
Esta com­po­si­ção é do gui­tar­rista Antó­nio Pinto e eu pedi-​​lhe para a incluir­mos no CD. Segundo o Antó­nio, esta foi uma daque­las com­po­si­ções que sur­giu toda de uma vez. Por vezes quando isto acon­tece, fica­mos com um tema com­pleto nas mãos e não sabe­mos que título lhe vamos dar. Ficou este.

Slink
Uma com­po­si­ção do Lyle Mays, um dos meus heróis do piano e dos tecla­dos, não só ao nível da exe­cu­ção, mas tam­bém da abor­da­gem e da com­po­si­ção. Este tema é uma espé­cie de fuga no sen­tido bar­roco, com várias melo­dias em simul­tâ­neo, aquilo a que se chama con­tra­ponto. É de difí­cil exe­cu­ção e come­cei por transcrevê-​​lo para apren­der algo mais sobre a forma como foi escrito, aca­bando depois por deci­dir tocá-​​lo no grupo.

Alba
Esta faixa dá o nome ao CD e foi escrito já a pen­sar na gra­va­ção. Alba sig­ni­fica ama­nhe­cer, é a pri­meira luz da madru­gada. Para mim tem vários sen­ti­dos: quando esta­mos perante novos desa­fios nas nos­sas vidas, como o de ser pai ou de par­tir na aven­tura de gra­var um CD, por exem­plo, deparamo-​​nos mui­tas vezes com uma sen­sa­ção agri­doce de feli­ci­dade, mas tam­bém de “frio na bar­riga”, de ansi­e­dade sobre se irá tudo cor­rer bem ou não. Um novo ama­nhe­cer é belo e cheio de espe­rança, mas tam­bém cheio de dúvi­das e incertezas.

1900
Outra com­po­si­ção do Antó­nio Pinto. Segundo ele – um amante da pin­tura do iní­cio do sec. XX – este foi um período de grande cri­a­ti­vi­dade nas mais diver­sas artes, aqui bem no cen­tro da nossa Europa e este título é uma refe­rên­cia a todos estes artistas.

O Moi­nho
A minha com­po­si­ção mais antiga neste CD. Quando saí de casa dos meus pais para morar sozi­nho, vivi em Alverca, numa zona de campo. Havia um moi­nho em ruí­nas no alto de um monte que ficava mesmo em frente à janela junto da qual estava o meu piano eléc­trico. Mui­tas e mui­tas horas aquele moi­nho me fez com­pa­nhia quando estava a pra­ti­car ou a compor.

Dienda
Uma lin­dís­sima com­po­si­ção do já fale­cido pia­nista Kenny Kir­kland. É a minha home­na­gem a um mes­tre do piano que não ficou muito reco­nhe­cido e que fale­ceu novo demais.

Drama do Beiço
Este tema foi tam­bém escrito para o reci­tal final da ESMAE. O título é um tro­ca­di­lho com “Drum n’ Bass”, que é o nome que se dá a este tipo de ritmo. Esta com­po­si­ção é ins­pi­rada na música do pia­nista, infe­liz­mente tam­bém já fale­cido, Esb­jorn Svensson.

Regresso a Casa
Qua­tro anos de via­gens sema­nais para o Porto. Quando apa­nhava o com­boio de regresso, o sabor era espe­cial, par­ti­cu­lar­mente depois do meu filho ter nas­cido. Este tema é dedi­cado intei­ra­mente à minha mulher, Ana, que tanto me aju­dou em todo este pro­cesso, e ao pequeno Pedro, que tem sem­pre um sor­riso para mim. As cri­an­ças ensi­nam os adul­tos a serem mais simples…

dom diniz lavra

(liner notes por José Duarte)

na base um 4teto com duas cola­bo­ra­ções de um sopra­dor jazz por­tu­guês
joão moreira sopra – como sem­pre para bem para­béns — trom­pete e flis­corne à inglesa flu­e­ge­lhorn
sopra ins­tru­men­tos que dife­rem no fei­tio e sono­ri­dade
um sopro com sec­ção rít­mica com gui­tarra arruma qual­quer agru­pa­mento que não inclua sopros
jazz é música para sopros e per­cus­são
e o piano acús­tico é um ins­tru­mento de per­cus­são
a gra­va­ção dos sons que este ‘alba’ revela é exce­lente em par­ti­cu­lar o bom des­mul­ti­pli­car dos mem­bros do bate­rista (car­los miguel) nos pra­tos
exce­lente tam­bém a sono­ri­dade do mate­rial usado
pra­tos e tam­bo­res
‘alba’ é uma colec­ção de com­po­si­ções de nomes como o pró­prio diniz (a mai­o­ria) do gui­tar­rista do grupo (antó­nio pinto) e com influên­cias con­fes­sa­das do fale­cido esb­jorn svens­son tal como de kenny kir­kland e de lyle mays teclis­tas que diniz aprecia

após audi­ções repe­ti­das (jazz e outras músi­cas devem ser muito – bem – ouvi­das) dei pela kul­tura jazz deste ins­tru­men­tis­tas
há mui­tas horas de audi­ção jazz e pre­fe­rên­cias decla­ra­das
curi­osa e excep­ci­o­nal­mente diniz a meu ouvir não mos­tra ter ouvi­dos para bill evans nem sequer keith jar­rett estes pia­nis­tas influ­en­ciam e influ­en­ci­a­ram muu­u­u­u­ui­tos pia­nis­tas jazz deste pla­neta
a geni­a­li­dade não pode ser imi­tada só copi­ada
mais ou menos
este é um cd tocado todo em tem­pos médios opção que sabe ao que sabe
um tempo médio é mais fácil de entrar na memó­ria
sabe melhor ouvir ‘drama do beiço’ que quase foge à regra mas escrito para ser bri­lhante na esmae escola ao norte
música jazz tem gosto e por isto não pode ser escu­tada fora do prazo
cavalli é bai­xista ita­li­ano e seguro de si e do jazz que toca
sem­pre
em ver­dade vos escrevo que este 4teto + 1 fun­ci­ona não como 4 músi­cos + 1 músico mas lou­va­da­mente como um 4teto + 1 um grupo com uni­dade & tra­ba­lho
enfim tocam uns para os outros
coisa rara
é um tra­ba­lho colec­tivo e com bem suce­dida inten­ção se mis­tu­ram se ouvem uns aos outros se com­bi­nam solis­tas com os que em outros gru­pos acom­pa­nham
elo­gio mere­cido
o jazz que diniz lavra é bem suce­dido colheita de labuta já antiga desde
uma escola jazz
rock
‘clás­sica’
workshops
aca­de­mia dos ama­do­res de música
um 19 em exame final mais veloso e gonzo entre mui­tos outros
o que diniz lavra é ver­dade
ver­dade de quem lavra
e vê crescer

Março 2009

Ficha téc­nica (inglês) e agradecimentos

Recor­ded at Vale de Lobos Stu­dios, Febru­ary 2008
Addi­ti­o­nal recor­dings, mixing and mas­te­ring at G-​​Spot Studios

All pho­to­graphs by Nana Sousa Dias
www.nanasousadias.com
Art Direc­tion by Daniel Mene­ses
Liner Notes by José Duarte

Pro­du­ced by Ale­xan­dre Diniz
Recor­ded by Rui Guer­reiro, assis­ted by Filipe Feio and Paulo Meruje
Mixed by Gon­çalo Pereira and Ale­xan­dre Diniz
Mas­te­red by Gon­çalo Pereira

All music com­po­sed by Ale­xan­dre Diniz, except tracks 3 and 6 by Antó­nio Pinto, track 4 by Lyle Mays and track 8 by Kenny Kirkland

Musi­ci­ans:
Ale­xan­dre Diniz – Piano, Pro­gram­ming (track 9)
Antó­nio Pinto – Gui­tars
Car­los Miguel – Drums
Mas­simo Cavalli – Dou­ble Bass
Spe­cial Guest: João Moreira – Trum­pet (track 4) and Flu­ge­lhorn (track 2)

Car­los Miguel plays Gretsch drums and Sabian cym­bals
Mas­simo Cavalli plays JP Cus­tom Gui­tars’ bas­ses and Ash­down gear

Agra­de­ci­men­tos /​ Spe­cial Thanks to:

Aos músi­cos: Toni, Car­los e Mas­simo, obri­gado pela forma como aca­ri­nha­ram este pro­jecto, este cd tam­bém é vosso; João Moreira pela vali­osa pres­ta­ção e dis­po­ni­bi­li­dade; Sofia Espada, por ser o “quinto ele­mento” deste quar­teto; Rui Veloso pela opor­tu­ni­dade, Rui Guer­reiro e o pes­soal de Vale de Lobos; Gon­çalo Pereira e Dikk do G-​​Spot; Paula Gon­çal­ves e Dani­ela Silva da Quarta Per­feita; André Fer­nan­des; Nanã Sousa Dias; Daniel Mene­ses; José Duarte; Tuta (Car­los M. Pereira); Nel­son Gomes; Fer­nanda Antu­nes; José Cor­rêa Men­des (Dar­gil); João Almeida (Antena 2); Ruben Alves; Marta Catana; Rodrigo d’Orey; Maria Bera­sarte; Joana Rios; Gui­lherme Car­taxo; a todos os que de alguma forma aju­da­ram a con­cre­ti­zar este projecto.

Um agra­de­ci­mento muito espe­cial à Ana, que me empur­rou para isto e me apoiou de todas as manei­ras pos­sí­veis, e ao pequeno Pedro, ape­nas por exis­tir; o “Regresso a Casa” é para vocês!

Mas­simo Cavalli agra­dece à JP Cus­tom Gui­tars e à equipa da Road Crew pelo apoio cons­tante e ami­zade; ao Alex, Toni e Car­los Miguel pela ami­zade, paci­ên­cia e música que nos une.